10 de junho de 2010

A voz calada


A cada pancada nos bombos estremece a cidade. São pancadas nas almas dos amarantinos.

"Acorda povo! Olha à tua volta! Não te apraz esta sorte?
Desdenha menos e admira mais. Sou eu, Amarante, sonorizada nestes bombos, que te falo! Sai à rua, Povo. Não hoje porque são as festas, mas sempre, porque me amas. Eu protejo-te de tanto... Um tanto que desconheces e, por isso mesmo, nem sabes o quanto esse tanto é! Porque não estou sempre cheia assim? Porque me admiram apenas quando os carrinhos chegam? Porque me ouvem só quando rufam os bombos? És como um filho que só faz um carinho à mãe no seu aniversário.
Não, não assumo as culpas do que me acusas. A cidade não tem vida porque tu não lha dás. Não te cales! Não saias à rua só quando há festa! Faz-me viver! Esta cidade é tua, e de mais ninguém. Age! Reclama! Impõe-te! Não fazes nada disso, pois não? Então não te queixes. E continua a ouvir-me e a ver-me só em dias de festa.
Mas cala-te, já que não sabes o que dizes.
Agora sorri. São as festas afinal. Há alegria na rua. Olha, afinal tenho jovens. Hoje, porque há festa, quiseram ficar. Noutros dias preferem ir fazer a festa para outro lado...

Vejam e ouçam os bombos. Para quê falar se não me querem ouvir?"

9 de junho de 2010

O Junho

Ouviam-se descrições de como era noutros tempos. Das enchentes nas ruas, das animações, dos dias preenchidos. Viam-se as pessoas alegres, mas habituadas. Viam-se os jovens reunidos, os reencontros, as conversas e os brindes. Viram-se os bombos e as pessoas que os admiravam. Que energia, que vontade têm aqueles homens e aquelas mulheres! Que fôlego! Eu admiro-os e invejo-os.
E agradeço a todas as pessoas que enriqueceram as festas, a cidade. Nem fui aos carrinhos. Antes dizia que se não fosse aos carrinhos nem parecia Junho. Este ano não fui e não precisei de ir. Enquanto a maioria dizia que o Junho já não é o que era, eu pensava que para mim o Junho é o que nunca foi... Já anseio o próximo ano e imagino as mudanças que vamos encontrar.

Boa ressaca de festas!

2 de junho de 2010

Grito


Grito mas já nem eu ouço. Grito para dentro de mim. A cabeça não pára. São tantas coisas a correr de um lado para o outro que se tornam incontroláveis. As certezas começam a esmorecer e até a que me mantém em pé abana.
Tantas coisas a correr de um lado para outro... Muitas delas deviam estar sempre quietas para me esquecer que existem. E grito outra vez.
Não é a cabeça que incomoda agora. É outro órgão. Desta vez fico calada, já não consigo gritar. Fico eu quieta. As coisas já podem correr todas de um lado para o outro, como lhes apetecer. Nem tento controla-las. Rendi-me. Agora assisto. Sou um peso morto. O outro órgão petrificou-me.
E que tudo seja como tem de ser, que é como quem diz, Ámen.

25 de maio de 2010

O Mesmo

O mesmo Teucro duce et auspice Teucro
É sempre cras — amanhã — que nos faremos ao mar.

Sossega, coração inútil, sossega!
Sossega, porque nada há que esperar,
E por isso nada que desesperar também...
Sossega... Por cima do muro da quinta
Sobe longínquo o olival alheio.
Assim na infância vi outro que não era este:
Não sei se foram os mesmos olhos da mesma alma que o viram.
Adiamos tudo, até que a morte chegue.
Adiamos tudo e o entendimento de tudo,
Com um cansaço antecipado de tudo,
Com uma saudade prognóstica e vazia.

Álvaro de Campos

16 de abril de 2010

Muda-se o tempo


As alergias chegaram. É o que se fala...
Mas com as alergias vêm também as alegrias! Chegaram as flores, os dias grandes, as pessoas nas ruas e os jardins com crianças (ai como aqueles risos aquecem o coração).
A beleza da nossa Terra, fica agora a descoberto. Não a esqueçam.

6 de abril de 2010

Como já não é


De casa em casa a tentar chegar antes do compasso. Será que já passou em casa da Tia? Onde vamos agora? Despacha-te! Vem aí a banda!
Os carros enchem as bermas da rua e as pessoas reúnem-se nas entradas das casas à espera das batas cor-de-vinho. A sineta toca, com mais ou menos intensidade, depende de quem a traz. O envelope, encostado ao arranjo de mesa, é recolhido depois dos beijos na cruz. Uns dão no rosto, outros nos pés, outros fingem que dão. Alguns não se lembram, e outros ainda não sabem, porque se dá.
As mesas estão cheias de comida. Pão-de-ló, salpicão, presunto, chouriço, vinho verde, vinho maduro, azeitonas entre muitos outros petiscos. O almoço e o jantar já se sabe: cabrito.
A família reunida. "Olha quem veio para a Páscoa!"
Visitas inesperadas, mas sempre agradáveis. Vamos a casa da Tia? se nos despacharmos ainda chegamos a tempo.
Só gosto de amêndoas de chocolate. Será que assim não é Páscoa de verdade?