15 de agosto de 2013

Queiram tudo comigo

Eu não sei que amor é este que me liga irremediavelmente a esta Terra. Não encontro argumentos racionais suficientemente fortes para justificar esta necessidade, esta dependência desta Terra. Eu não sei o que é, mas sei que existe, porque eu sinto-a. Sim, o amor que se tem a esta terra é quase uma religião.
Quando quis crescer mais um pouco – quando quis continuar a estudar – esta Terra obrigou-me a deixa-la. Mas sempre que vinha a casa, sempre que a autoestrada começava a mostrar as placas com o seu nome e sempre que via os quilómetros de distância a diminuir, eu começava a respirar melhor. Nessa altura, acreditava eu que estava a colher noutro sítio conhecimentos que poderia aplicar aqui, conhecimento que poderia pôr ao dispor da minha cidade. Eu e todos os jovens que, como eu, tiveram de sair para estudar, iríamos voltar e fazer Amarante avançar de forma consciente, assente no conhecimento das suas gentes, sem medos, sem interesses, mas com muito Amor. Não voltei. Nem eu, nem muitos dos que, como eu, saíram para estudar.
Quando chegou a hora de arranjar emprego, Amarante manteve-me lá fora. E assim passaram sete anos desde que deixei Amarante temporariamente. Muitos dos que, como eu, a deixaram, não planeiam já voltar. Perguntam-me: “para quê?”, e eu não sei dar uma resposta plausível. Eu moro numa cidade que tem todos os serviços, todas as condições e algumas oportunidades, mas só sonho com o dia em que poderei ter o código postal de Amarante como meu novamente. Amarante, esta Terra que muitos descrevem como boa para passar a reforma, como uma cidade sem oportunidades, sem juventude, sem futuro e, mesmo assim, eu não consigo desejar o meu futuro noutra cidade. Porque nenhuma outra é a minha. Amarante… este nome lindo, que, ao dizê-lo, parece não terminar. Amarante…
Sonho com a tranquilidade para mim, sonho poder levar o meu filho a andar de bicicleta na ecopista e absorver todo aquele verde, respirar este ar puro. Sonho com as ruas sem trânsito, sonho com os cafés à beira-rio. Sonho com a oportunidade de poder contribuir com algo para o crescimento da minha cidade.  Porque, por mais tempo que passe, por mais cidades que cruze, nenhuma delas é a minha. Eu sou o que sou porque cresci aqui e não noutro lugar. Eu sou o que sou porque foram estas paisagens, estas ruas e estas pessoas que me rodearam. A esperança não morreu, nem a minha vontade e de muitos outros apaixonados por esta Terra. Com todo o potencial que a nossa cidade tem, podemos, e devemos, criar as oportunidades. E cada um de nós deve dar o seu melhor para agradecer o que esta cidade já fez por nós, e criar todas as condições para que possa fazer muito mais e muito melhor por muitos mais.
O Amor faz-me querer mais para minha Terra. O amor faz-me desejar para Amarante tudo o que ela merece e tudo o que a sua gente merece. O amor não nos venda os olhos e faz dizer que está tudo bem. O amor não nos faz conformar com o que está à nossa frente. A verdadeira paixão faz-nos querer tudo. E eu quero tudo a que Amarante tem direito. E quero poder viver nesta terra que agora é linda e que, um dia, poderá ser fantástica.

Não façam vista grossa. Queiram tudo comigo.

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