Mostrar mensagens com a etiqueta saudade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta saudade. Mostrar todas as mensagens

11 de março de 2013

O Queridinho

Quando a distância começou a ser menos pesada, quando comecei a conseguir prender o desespero de os ver partir, nasceste tu. Achava eu que não podia haver maior vazio, dor mais dilacerante do que os ver partir sozinhos, mas vê-los partir contigo era simplesmente insuportável. Eles que me perdoem, mas só queria saber de ti. Era do meu pequenino que tinha saudades.
Quando via um bebé na rua, imaginava como já devias ter crescido. Pensava nas gargalhadas, nas brincadeiras, nas traquinices que estava a perder.  Quando nos reencontrávamos, custava ver que não percebias que ali estavam os teus irmãos. Era uma reconquista constante. Eram reencontros maravilhosos que me enchiam o coração e eu não queria voltar a esvaziá-lo. Mas essa hora chegava sempre.
Tu não tens noção, pelo menos para já, do amor que te temos. Tu eras mais do que o nosso irmão. Eras a nossa união. A saudade passou a ter o teu rosto.
Olhava para ti bebezinho e imaginava como serias quando tivesses a idade que hoje tens. Imaginava-te mais ao menos como hoje és.
Quando chegou a tua vez de ficar também, já nem pensava na partida deles porque só conseguia pensar em como transformar os teus dias mais alegres, menos sofridos. As noites passaram a ser mais curtas, as tarefas, preocupações e responsabilidades mais longas, mas ver-te a crescer e a sorrir compensava tudo.

Hoje, nos meus sonhos, o teu rosto e o do Dinis aparecem misturados. Não és meu irmão desde sempre, houve muitas coisas que não partilhaste connosco, mas és o nosso menino e, por algum motivo, todos sofremos muito mais com a tua ausência. 
Cresce e mostra porque sempre te amamos tanto. Mostra que todos já sabíamos que irias ser um Grande homem, com um coração gigante.

27 de setembro de 2012

Ele foi embora

Ele foi embora e eu não quis pensar muito nisso. Tenho este estranho mecanismo de defesa que consiste em olhar para as coisas como se elas fossem naturais. Vejo-as a acontecer mas recuso-me a pensar nelas com o coração. Porque isso dói.
Ele foi embora agora, como já tinha ido embora há 3 anos atrás. Mas as distâncias são agora maiores. É a distância física, a psicológica e até a tecnológica. Mas eu argumentei a mim mesma que seria quase a mesma coisa. Mas não é.
O aumento da distância física faz com que queiramos compensar com o aumento da interacção. Queremos ligar mais, escrever mais, ver mais... Quando não conseguimos, a noção das distâncias surge e belisca-me o coração.
Durante a maior parte da minha vida (sim, continua a ser a maior parte), ele foi a minha metade. Quando paro para sentir o tempo, o vazio dói. Ele está longe demais no tempo e no espaço. A sabedoria popular diz que "o tempo cura tudo" e que "longe da vista, longe do coração". Eu recuso-me.
Sempre ansiei para que nos déssemos melhor. Mas eu já não quero. Não são as relações cordiais que nos fazem "dar melhor", são as genuínas, as que nos faziam discutir e até andar à porrada, porque estávamos ali os dois, tal como éramos, de verdade.

Ele já foi embora há muito tempo. Foi embora para nunca mais voltar. A minha dor vem dessa consciência. Crescer fez com que deixássemos de ser a metade um do outro. E por muito que aconteça nesta vida, nunca mais o seremos. E eu tenho pena de não saber o que sei hoje para aproveitar melhor o tempo que passou. Quanto mais cresço, mais o valorizo e melhor o compreendo.

Guardarei todas as recordações com um Amor imenso para contar às seguintes gerações como era ser criança e ter irmãos.

25 de maio de 2010

O Mesmo

O mesmo Teucro duce et auspice Teucro
É sempre cras — amanhã — que nos faremos ao mar.

Sossega, coração inútil, sossega!
Sossega, porque nada há que esperar,
E por isso nada que desesperar também...
Sossega... Por cima do muro da quinta
Sobe longínquo o olival alheio.
Assim na infância vi outro que não era este:
Não sei se foram os mesmos olhos da mesma alma que o viram.
Adiamos tudo, até que a morte chegue.
Adiamos tudo e o entendimento de tudo,
Com um cansaço antecipado de tudo,
Com uma saudade prognóstica e vazia.

Álvaro de Campos

19 de janeiro de 2010

Tenho saudades tuas

Saudades de quando me roubavas o comando e gozavas comigo. Saudades de quando me punhas a chorar e começavas a rir. Tenho saudades de esperar por ti para voltar para casa. De quando me prometias brincar comigo com as bonecas depois de jogarmos futebol, e não brincavas. Saudades de brincar nas casas em construção da rua de baixo. De querer ir contigo para todo o lado, até para as festas de aniversário dos teus amigos.
Tenho saudades de te odiar por gostar demasiado de ti e não perceber porquê. Saudades de nos pegarmos, de lutarmos, aleijar-mo-nos, mas morrer de saudades quando nos separavam. Saudades de te ver a gozar com a avó. De te ver a fugir da avó, com a vassoura na mão, à volta da casa, até cansar e rir. De fugir para o parque em Grindelwald. De chorar mais do que tu quando te magoavas. Saudades de querer jogar tão bem como tu. Saudades do orgulho que sentia quando dizias "Esta é a minha irmã". Saudades de quando me engraxavas para me pedires dinheiro emprestado.
Saudades da protecção. Dos ciúmes dos amigos por me verem como rapariga e não como tua irmã. Saudades da dor no peito sempre que se suspeitava que estivesses em apuros. Saudades da tua força mascarada de indiferença.
Saudades de querer ser como tu. Do medo de te desiludir. Da vontade de te defender... Afinal de contas, só eu posso falar mal de ti.
Saudades de sermos só os dois.
Saudades de sermos Irmãos.