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27 de setembro de 2012

Ele foi embora

Ele foi embora e eu não quis pensar muito nisso. Tenho este estranho mecanismo de defesa que consiste em olhar para as coisas como se elas fossem naturais. Vejo-as a acontecer mas recuso-me a pensar nelas com o coração. Porque isso dói.
Ele foi embora agora, como já tinha ido embora há 3 anos atrás. Mas as distâncias são agora maiores. É a distância física, a psicológica e até a tecnológica. Mas eu argumentei a mim mesma que seria quase a mesma coisa. Mas não é.
O aumento da distância física faz com que queiramos compensar com o aumento da interacção. Queremos ligar mais, escrever mais, ver mais... Quando não conseguimos, a noção das distâncias surge e belisca-me o coração.
Durante a maior parte da minha vida (sim, continua a ser a maior parte), ele foi a minha metade. Quando paro para sentir o tempo, o vazio dói. Ele está longe demais no tempo e no espaço. A sabedoria popular diz que "o tempo cura tudo" e que "longe da vista, longe do coração". Eu recuso-me.
Sempre ansiei para que nos déssemos melhor. Mas eu já não quero. Não são as relações cordiais que nos fazem "dar melhor", são as genuínas, as que nos faziam discutir e até andar à porrada, porque estávamos ali os dois, tal como éramos, de verdade.

Ele já foi embora há muito tempo. Foi embora para nunca mais voltar. A minha dor vem dessa consciência. Crescer fez com que deixássemos de ser a metade um do outro. E por muito que aconteça nesta vida, nunca mais o seremos. E eu tenho pena de não saber o que sei hoje para aproveitar melhor o tempo que passou. Quanto mais cresço, mais o valorizo e melhor o compreendo.

Guardarei todas as recordações com um Amor imenso para contar às seguintes gerações como era ser criança e ter irmãos.

19 de janeiro de 2010

Tenho saudades tuas

Saudades de quando me roubavas o comando e gozavas comigo. Saudades de quando me punhas a chorar e começavas a rir. Tenho saudades de esperar por ti para voltar para casa. De quando me prometias brincar comigo com as bonecas depois de jogarmos futebol, e não brincavas. Saudades de brincar nas casas em construção da rua de baixo. De querer ir contigo para todo o lado, até para as festas de aniversário dos teus amigos.
Tenho saudades de te odiar por gostar demasiado de ti e não perceber porquê. Saudades de nos pegarmos, de lutarmos, aleijar-mo-nos, mas morrer de saudades quando nos separavam. Saudades de te ver a gozar com a avó. De te ver a fugir da avó, com a vassoura na mão, à volta da casa, até cansar e rir. De fugir para o parque em Grindelwald. De chorar mais do que tu quando te magoavas. Saudades de querer jogar tão bem como tu. Saudades do orgulho que sentia quando dizias "Esta é a minha irmã". Saudades de quando me engraxavas para me pedires dinheiro emprestado.
Saudades da protecção. Dos ciúmes dos amigos por me verem como rapariga e não como tua irmã. Saudades da dor no peito sempre que se suspeitava que estivesses em apuros. Saudades da tua força mascarada de indiferença.
Saudades de querer ser como tu. Do medo de te desiludir. Da vontade de te defender... Afinal de contas, só eu posso falar mal de ti.
Saudades de sermos só os dois.
Saudades de sermos Irmãos.