2 de junho de 2010

Grito


Grito mas já nem eu ouço. Grito para dentro de mim. A cabeça não pára. São tantas coisas a correr de um lado para o outro que se tornam incontroláveis. As certezas começam a esmorecer e até a que me mantém em pé abana.
Tantas coisas a correr de um lado para outro... Muitas delas deviam estar sempre quietas para me esquecer que existem. E grito outra vez.
Não é a cabeça que incomoda agora. É outro órgão. Desta vez fico calada, já não consigo gritar. Fico eu quieta. As coisas já podem correr todas de um lado para o outro, como lhes apetecer. Nem tento controla-las. Rendi-me. Agora assisto. Sou um peso morto. O outro órgão petrificou-me.
E que tudo seja como tem de ser, que é como quem diz, Ámen.

25 de maio de 2010

O Mesmo

O mesmo Teucro duce et auspice Teucro
É sempre cras — amanhã — que nos faremos ao mar.

Sossega, coração inútil, sossega!
Sossega, porque nada há que esperar,
E por isso nada que desesperar também...
Sossega... Por cima do muro da quinta
Sobe longínquo o olival alheio.
Assim na infância vi outro que não era este:
Não sei se foram os mesmos olhos da mesma alma que o viram.
Adiamos tudo, até que a morte chegue.
Adiamos tudo e o entendimento de tudo,
Com um cansaço antecipado de tudo,
Com uma saudade prognóstica e vazia.

Álvaro de Campos

16 de abril de 2010

Muda-se o tempo


As alergias chegaram. É o que se fala...
Mas com as alergias vêm também as alegrias! Chegaram as flores, os dias grandes, as pessoas nas ruas e os jardins com crianças (ai como aqueles risos aquecem o coração).
A beleza da nossa Terra, fica agora a descoberto. Não a esqueçam.

6 de abril de 2010

Como já não é


De casa em casa a tentar chegar antes do compasso. Será que já passou em casa da Tia? Onde vamos agora? Despacha-te! Vem aí a banda!
Os carros enchem as bermas da rua e as pessoas reúnem-se nas entradas das casas à espera das batas cor-de-vinho. A sineta toca, com mais ou menos intensidade, depende de quem a traz. O envelope, encostado ao arranjo de mesa, é recolhido depois dos beijos na cruz. Uns dão no rosto, outros nos pés, outros fingem que dão. Alguns não se lembram, e outros ainda não sabem, porque se dá.
As mesas estão cheias de comida. Pão-de-ló, salpicão, presunto, chouriço, vinho verde, vinho maduro, azeitonas entre muitos outros petiscos. O almoço e o jantar já se sabe: cabrito.
A família reunida. "Olha quem veio para a Páscoa!"
Visitas inesperadas, mas sempre agradáveis. Vamos a casa da Tia? se nos despacharmos ainda chegamos a tempo.
Só gosto de amêndoas de chocolate. Será que assim não é Páscoa de verdade?

10 de março de 2010

Meggen, Luzern und Grindelwald



Os graus negativos congelam-me os músculos. É preciso algum esforço, um braço de ferro com o frio para poder sorrir. A vontade faz-me vencer constantemente essa luta. Não lembra o esforço. Mas lembram os sorrisos. A neve não derrete ao cair no casaco. Acumula. A minha menina não pára de sorrir, de saltar de alegria, de espantar o frio com as corridas. É um toque de luz.
Momentos a duas adiados durante anos pela distância. Não se recuperam num dia, mas a doçura, a inocência e a bondade revelam-se. Que orgulho!
Voltando ao local: as ruas estão iguais. Os prédios e as casa são as mesmas. O frio também (tenho os pés gelados!).
Meggen e Luzern estão iguais. Já em Grindelwald reencontrei o meu parque diferente. Não tem importância. As recordações continuam presas àqueles baloiços, àquele escorrega.
Ficou TANTO por ver... Recordações de lugares que mais ninguém lembra. Recordações de lugares que provavelmente nem existem fora da minha imaginação. Não, eu não tenho memória curta. Lembro-me das pessoas que fizeram parte da minha vida. Sinto falta das que me fizeram muito bem e até das que me fizeram algum mal. Se quiserem podem chamar-me nostálgica. Mas não acho que é o correcto. Eu sorrio ao lembrar-me do que vivi. Oxalá pudesse viver tudo mais uma vez para poder saborear mais intensamente cada momento. Para fixar mais pormenores dignos de recordação.

Estou presa àquela Terra. Nos jardins da casa de Meggen, nas ruas e nas lojas de Luzen e em cada cantinho de Grindelwald está um bocadinho de mim. E quero que permaneça lá.

Está frio, mas já não noto. O calor das recordações aquece-me a Alma. O coração acelera, o sangue corre mais rápido ao rever as casas que me acolheram, as ruas por onde corri.
E eu estou ali: a viver mais momentos para recordar no futuro.

1 de março de 2010

Rir

Rir enquanto a vida dura.
Rir porque faz bem. Rir é sinal de felicidade, mesmo que momentânea. E a vida é mesmo isso: momentos. A efemeridade da vida pode (e cada vez acredito mais que deve) ser vivida com a efemeridade da felicidade provocada pelo riso.
Efémeros. É o que somos. É o que grita todos os dias aos nossos ouvidos com as notícias globais e os casos mais locais e pessoais.
Vamos aprender. Eu quero aprender. Rir mais, viver mais e chatear-nos menos.

Há pessoas que nos fazem melhor que medicamentos...